Vale a pena recordar e perceber o que está brotando

“Vejam que estou fazendo uma coisa nova”
“Ela está brotando agora e o que  vocês não percebem?”

Pe. Tomaz Hughes SVD

“Não fiquem lembrando o passado, não pensem nas coisas antigas...”(Is 43, 18)

Uma das consequências de vivermos em uma sociedade dominada pela informática e pela globalização em tantas áreas da vida é o assustador desconhecimento do nosso passado em tantas áreas da vida. A falta do conhecimento da história em todos os setores da nossa vivência chega a ser chocante, de forma especial, mas não exclusivamente, entre os mais jovens. O nosso mundo atual ensina de diversas maneiras que somente o momento presente é importante. Não interessa o passado, nem o futuro – devemos viver somente pela gratificação individual imediata. Isso faz com que muitos sejam presas fáceis para as manipulações de uma sociedade consumista e materialista, sem ideais, sem utopias e sem capacidade de analisar, de uma maneira mais profunda, a caminhada da nossa história. É bom lembrar a frase perspicaz do grande filósofo espanhol, radicado nos Estados Unidos, George Santayana (1863-1952): “Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo.”
A Igreja e a Vida Religiosa Consagrada (VRC) não são imunes a um duplo perigo, o de esquecer o passado ou, no outro extremo, de simplesmente tentar repeti-lo, caindo numa cilada semelhante àquela apontada por Karl Marx, quando, referindo-se à sucessão dos Bonapartes na França, comentou: “A História se repete, a primeira vez como tragédia, e a segunda como farsa” .
No contexto atual da VRC, somos convidadas/os a olhar a caminhada do Povo de Deus, para que aprendamos dos seus acertos e erros, ajudando-nos a iluminar a situação em que nos encontramos e a descobrir pistas para a caminhada futura. Somos herdeiras/os de uma experiência milenar da atuação de Deus na história e, por isso, longe de cair na armadilha de imediatismo ou saudosismo, devemos olhar para a caminhada do Povo de Deus, para experimentar, na realidade atual da nossa caminhada, a verdade expressada pelo autor do Livro de Sabedoria, o último a ser escrito do Antigo Testamento:
“Sim, ó Senhor! De todos os modos engrandeceste e tornaste glorioso o teu povo. Nunca, em nenhum lugar, deixaste de olhar por ele e de socorrê-lo” (Sb 19,22).

1. Fazer nascerem coisas novas

Nos anos 1871-78, a Igreja Católica na Alemanha, especificamente na região então conhecida como o Reino de Prússia, estava sofrendo uma dura perseguição, liderada pelo “Chanceler de Ferro”, Otto von Bismarck – a “Kulturkampf”, ou “Luta Cultural”. Mais de mil paróquias ficaram sem padre, as Ordens e Congregações foram expulsas e seminários e obras fechados. A Igreja parecia sem perspectivas. Exatamente nessa situação, um simples padre diocesano da Diocese de Munster, Arnold Janssen, estava se inflamando com a ideia de fundar uma obra para formar missionários para a missão “ad gentes”, com prioridade para as massas da China. Escandalizado pelo fato de não existir qualquer obra missionária católica nos países de língua alemã - havia cinco institutos assim nas Igrejas Protestantes - embora a França, a Inglaterra e a Itália, entre outros países, tivessem os seus institutos, ele sonhava em fundar tal entidade. Para ele, o fato de tantos padres alemães ficarem sem trabalho pastoral, longe de ser um desastre, era a chamada de Deus para que eles se dedicassem às missões “estrangeiras”. No fim de 1874, foi buscar apoio do Arcebispo de Colônia, recém-saído da prisão, Monsenhor Paulus Melchers. O prelado não hesitou em jogar água fria sobre o entusiasmo de Janssen, dizendo: “em uma época em que tudo está sendo destruído e está ruindo, você deseja iniciar algo novo!”. O Pe. Arnoldo respondeu sem titubear: “vivemos em uma época em que muita coisa está em colapso, e coisas novas precisam ser estabelecidas no seu lugar” . O que para uma pessoa era sinal de desespero, para outra era sinal de oportunidade e esperança. Praticamente sem recursos, o (atual) Sto. Arnoldo atravessou a fronteira, comprou uma hospedaria abandonada na aldeia holandesa de Steyl, perto da divisa com a Alemanha e iniciou a sua obra, que agora abrange três Congregações religiosas-missionárias: os Missionários do Verbo Divino (SVD), as Irmãs Missionárias Servas do Espírito Santo (SSpS) e as Irmãs Servas do Espírito Santo da Adoração Perpétua (SSpSAdP), que hoje somam mais de dez mil membros, trabalhando como missionários e missionárias em setenta e cinco países. Os homens estavam destruindo, mas Deus estava fazendo nascer coisas novas. Mas era preciso ter o olhar correto para enxergá-las.
A história da caminhada do Povo de Deus está repleta de exemplos desta constante ação criadora e recriadora de Deus. Na verdade, pode ser visto como uma série de crises que, para quem tinha o olhar de fé para enxergar além das aparências, eram, na verdade, oportunidades para aprofundar a vivência da fé na experiência da presença do Deus da vida. Assim, por exemplo, a série de crises na caminhada no deserto, especialmente os problemas causados pela natureza: falta de água (cf. Ex 15,22-27), falta de comida (cf. Ex 16,1-36), água amarga (cf. Ex 17,1-17) eram oportunidades para amadurecer a fé. Havia também desafios causados pelos homens: os perigos provenientes dos inimigos de fora, como os amalecitas (cf. Ex 17,8-16) e os perigos no interior da própria comunidade, como a centralização da liderança (cf. Ex 18,1-27). Assim também foi durante a dura experiência do Exílio em Babilônia, bem como com os profetas, com os salmistas e sábios. Não foi diferente com Jesus de Nazaré e com as primeiras comunidades.
Na verdade, era algo constante na experiência do povo, desde a sua formação até o Apocalipse. Para muitos, cada crise significava o fracasso do projeto, mas para quem tinha a sensibilidade para enxergar a ação do Espírito, as crises eram oportunidades de crescimento, aprofundamento e avanço no projeto de Deus.

2. A semente que quer germinar

Qualquer análise da situação da VRC hoje, especialmente na sua forma da “vida apostólica”, aponta para um contexto de crise. Em uma das reflexões chaves do Seminário sobre a Vida Religiosa Apostólica (VRA) em Itaici em fevereiro 2012, o Pe. Carlos Palácios SJ afirmou: “A VRA hoje não apresenta uma figura definida... No rosto de muitos dos nossos irmãos e irmãs está estampado o desencanto com a opção de vida que fizeram; outros transmitem a triste impressão de terem “estacionado” na vida (até aqui cheguei e basta!); alguns – não poucos! – enveredaram pelo caminho pós-moderno da autoafirmação, em uma busca desenfreada da auto-realização a qualquer preço, contraditória com nosso projeto de vida...Há, sem dúvida, muita vida: buscas honestas, entregas generosas, ensaios de revitalização. Mas mesmo assim não podemos ocultar a nossa perplexidade: o que nos dói é não saber como lidar com essa situação, como animar esses nossos irmãos e irmãs, como ajudá-los a viver com sentido, dando a razão da nossa esperança. Não é questão de boas intenções. É um problema “estrutural”; não de “estruturas”, mas do que nos dá consistência, nos constitui, na estrutura por dentro, ao mesmo tempo em que nos configura por fora. É como se nos faltasse a “coluna vertebral” da nossa vida, a que nos permite ficar em pé como vida religiosa apostólica”.
Sinal do fim do projeto ou oportunidade de renovação? Pessimismo ou otimismo? Sinal da morte ou de vida nova que começa a brotar? Como em tudo que é humano, existe certa ambiguidade inerente no panorama da VRC hoje. É sempre assim com a história humana. O Povo de Deus da Primeira Aliança também passou por experiência semelhante, que talvez pudesse ter assinalado o fim e a caducidade de um projeto que tinha durado séculos. Na verdade, o projeto era arauto de uma experiência mais profunda de Deus, na fé e na esperança, e que vingou, graças à acuidade do olhar de alguns homens e mulheres que conseguiram libertar-se da camisa-de-força estrutural de uma tradição mal compreendida, para descobrir a ação criadora permanente de Deus, exatamente no meio do que parecia ser uma crise sem saída.

3. O Exílio em Babilônia – a Crise Definitiva

Na verdade, aconteceram muitos exílios na história do Povo de Deus, alguns até mais definitivos do que aquele que aconteceu depois da queda de Jerusalém diante do exército de Nabucudonosor em 587 a.C. . Mas quando se fala em “O Exílio”, sempre se pensa na experiência referencial daquele desterro da Babilônia. É importante entender o motivo disso e, quem sabe, ver alguns paralelos com a situação da VRC nos dias de hoje.
O cerne da questão não foi somente o fato de uma boa parcela da população ser desterrada. O choque foi muito maior, por força da destruição de uma série de certezas que fundamentavam a fé e a ideologia religiosa oficial reinante no seio do povo. Simplificando, podemos elencar algumas dessas certezas:
- Como sinal da sua predileção, Deus tinha garantido a posse da terra ao seu povo, em perpetuidade:
- A teologia davídica, nutrida nos meios palacianos e sacerdotais de Jerusalém, enfatizava a promessa de Deus de que um descendente de Davi reinaria sobre o seu povo para sempre;
- Jerusalém fora escolhida por Deus como cidade da sua morada perpétua;
- De maneira especial, o Senhor fixava a sua morada no Templo de Jerusalém e somente ali é que seria adorado.
Esses princípios, entendidos como promessas provenientes do próprio Deus, se propagavam como alicerces da fé do Povo, como povo escolhido. Isso criava na prática, especialmente entre a elite, um descuido com a Aliança e seus princípios, e ajudava a encobrir a arrogância e a prática da injustiça, camuflada pela teologia hegemônica:
“Dirijam-se a Betel, e pequem; vão a Guilgal e pequem ainda mais! Ofereçam de manhã seus sacrifícios e ao terceiro dia levem seus dízimos! Ofereçam pão fermentado como sacrifício de louvor e proclamem em alta voz as ofertas espontâneas! Pois é disso que vocês gostam, filhos de Israel!” (Am 4,4-5);
“Eles profetizam: “Não profetizem, não profetizem essas coisas! A desgraça não cairá sobre nós. Por acaso, a casa de Jacó foi amaldiçoada? Acabou a paciência de Javé? É isso que ele costuma fazer? Por acaso, sua promessa não é de bênção para quem vive com retidão? (Mq 2, 6-7)
Por conseguinte, quando em 587 o povo ficou sem terra, sem rei, sem cidade e sem Templo, para muitos ruíram não somente os muros de Jerusalém, mas os alicerces da sua própria fé. Parecia que tudo não passava de uma ilusão, que o Senhor tinha sido infiel, que o Deus de Israel tinha sido vencido pelos deuses de Babilônia, que a fé carecia de um fundamento sólido. Em um primeiro momento não se enxergava que essas “certezas” eram invenções humanas que geravam a infidelidade à Aliança e que precisavam ser derrubadas e desmistificadas, para que pudesse renascer o povo com uma fé mais forte, pura e viva.

4. A grande crise da VRC

Sem querer fazer paralelismos simplistas, parece que algo semelhante aconteceu na Igreja e, de maneira especial, na VRC. Até Vaticano II parecia que nós estávamos seguros na nossa identidade e missão, tanto dentro da Igreja como diante do mundo. Na verdade, a história iria mostrar em pouco tempo a fragilidade dessas seguranças, da mesma maneira como se encarregou de desmascarar a falta de fundamento das bases da organização religiosa e política de Israel e Judá. Este processo é mais do que conhecido, especialmente pelos religiosos e religiosas que experimentaram na pele o “tsunami” de desistências, rachas e divisões que atingiam grandes parcelas da VRC nos anos imediatamente após o Concílio Vaticano II. Para muitos e muitas se deu um senso de perplexidade muito semelhante àquele que assolava os exilados no desterro babilônico. Parecia que o tapete havia sido puxado de debaixo dos nossos pés e ficou uma sensação de vazio e confusão que, em muitos casos, continua até os dias de hoje. Se antes a nossa identidade parecia clara a partir da nossa vocação à santidade, das nossas obras e da nossa identidade missionária, de repente vimos que o Concílio Vaticano II afirmou que existe a vocação universal à santidade, que todo cristão é missionário, e que não precisa ser religioso ou religiosa para desenvolver as atividades típicas do nosso apostolado. Cada vez mais se fez sentir a necessidade de responder a uma pergunta básica: se para fazer o que eu faço, não é necessário ser religioso/a, e se todos têm a mesma vocação à santidade, então porque sou religioso/religiosa? É por não conseguir responder a essa pergunta fundamental que muitos religiosos e religiosas hoje e, particularmente, a Vida Religiosa Consagrada Apostólica, ainda encontram-se em crise!
Os tempos do exílio em Babilônia eram tempos de insegurança, de perplexidade, de questionamento, semelhantes aos tempos atuais da VRC. Para o povo de Deus, as antigas respostas mostraram-se insuficientes para as novas indagações suscitadas pelo contexto sócio-político-religioso novo. Mesmo assim não faltavam vozes para dizer que a solução era voltar para as antigas estruturas, exatamente aquelas seguranças falsas que se mostraram sem fundamento e que contribuíram para a caminhada desastrosa de Israel e Judá. Não é muito diferente nos dias atuais: sobram vozes sugerindo uma volta às formas antigas da vivência da VRC, ignorando que, longe de serem firmes, essas mesmas estruturas eram alicerçadas em areia e que reconstruir o edifício da VRC sobre elas é garantir que toda a casa caia em ruínas. Hoje, diante das tentações de fazer uma releitura de uma “idade áurea” da VRC – que, na verdade não era tão “áurea” assim – podemos meditar a sabedoria do autor do Livro de Eclesiastes quando disse:
“Não diga: “Por que os tempos passados eram melhores do que os de hoje”? Não é a sabedoria que faz você levantar essa questão” (Ecl 6,10).
Muito pelo contrário, olhemos as pessoas que mostraram o caminho a seguir, com otimismo e fé, nos novos desafios de um novo contexto, especialmente os profetas do tempo exílico, como Deutero-Isaías, Ezequiel e Jeremias.

5. A voz da profecia

Na verdade, o colapso de todo o sistema político-religioso de Israel-Judá foi previsto por vários profetas, muito antes que acontecesse. Já na segunda parte do século oitavo antes de Cristo, Miquéias de Morasti viu que não mais bastavam simples mudanças cosméticas ou até troca dos chefes no sistema: precisava que ele ruísse para que Deus pudesse recriar o seu povo na lealdade à Aliança original:
“Por culpa de vocês, Sião será arado como um campo, Jerusalém se tornará um montão de ruínas, e o monte do Templo será uma colina cheia de mata” (Mq 3,12).
Mas tais vozes eram ignoradas e rejeitadas, pois tanto as lideranças como o povo eram cegados pela certeza de que nada de ruim iria acontecer porque, afinal, eram os eleitos do Senhor:
“...Constroem Sião com sangue e Jerusalém com perversidade. Os chefes de vocês proferem sentença a troca de suborno; seus sacerdotes ensinam a troco de lucro, e seus profetas dão oráculos por dinheiro. E ainda ousam apoiar-se em Javé, dizendo “Por acaso Javé não está no meio de nós? Nada de mal nos poderá acontecer”. (Mq 3, 10b-11).
Assim, quando o vendaval babilônico arrasou Judá e Jerusalém, para muitos era o fim de tudo:
“Por isso, choro e meus olhos se derretem, pois não tenho perto alguém que me console, alguém que me reanime. Os meus filhos estão desolados...” (Lm 1, 16).
Deus, porém, nunca abandona nem o seu povo, nem o seu projeto. Através das palavras de profetas como Jeremias, nos últimos anos da sua vida, e o profeta anônimo que conhecemos como Deutero-Isaías e seus seguidores, era possível descobrir uma luz na escuridão, uma esperança no desespero, e a ação permanente criadora do Senhor no meio dos destroços da antiga estrutura teológica e religiosa do povo. Na verdade, o Exílio não era o fim do projeto, mas uma oportunidade de renová-lo, libertando-o dos acréscimos ideológicos e estruturais que impediram que fosse coerente com a proposta original da Aliança. Frente a perplexidade de muitos diante da situação atual da VRC, uma releitura dos pronunciamentos do Deutero-Isaías pode ser muito iluminadora e encorajadora. De posse a tantos textos de uma beleza incomum, debrucemo-nos principalmente sobre os seguintes versículos:
“Assim diz Javé, aquele que abriu um caminho no mar, uma passagem entre ondas violentas, aquele que fez sair o carro e o cavalo, o exército e a força. Eles caíram para não mais se levantar, apagaram-se como paio que se extingue. Não fiquem lembrando o passado, não pensem nas coisas antigas; vejam que estou fazendo uma coisa nova: ela está brotando, e vocês não percebem?” (Is 43,16-19)
O ponto fundamental para o profeta é que toda a ação salvadora provém de Deus. Deus é o protagonista do seu projeto, e Ele escolhe Israel como seu instrumento predileto, com um amor insondável e incondicional. Durante séculos, o povo de Deus tinha se esquecido, na prática, dessa verdade, colocando a si mesmo, os seus ritos e leis como o alicerce, esquecendo que o único fundamento é o próprio Deus. Isso levou a um deslocamento, pois, sem que notassem, o centro ficou identificado com o próprio povo e as suas práticas religiosas, e não com a ação gratuita e amável de Deus. Ao longo do seu texto, o Deutero-Isaías não se cansa de insistir que tudo depende de Deus e que cabe ao povo colaborar com a graça de Deus e não substituí-lo por si mesmo. Assim:
“...cansei-me inutilmente, gastei minhas foras à toa, em nada. Enquanto isso, quem defendia os meus direitos era Javé, o meu pagamento estava na mão de Deus” (Is 49,4)
Em Is 43,16, o profeta reflete na ação do Senhor a partir do Êxodo:
“ Assim diz javé, aquele que abriu um caminho no mar, uma passagem entre as ondas violentas...”
Refletir sobre o primeiro Êxodo ajudará Israel a perceber o que Javé estava fazendo no aparente desastre do Exílio e também descobrir que, por maior que fosse, o primeiro Êxodo estava sendo ultrapassado, de um modo que excedia todas as esperanças. Por isso em 43,18 pede-se com insistência:
“Não fiquem lembrando a passado, não pensem nas coisas antigas”, ou seja, não se deve fixar no passado. “O Êxodo é um acontecimento arquetípico, mas arquetípico para novos acontecimentos e não é o único realizado por Javé. A memória não é suficiente. Pode até ser desmobilizadora. Precisa ser completada com a esperança, exatamente como aqui os vv. 16-17 se complementam nos v 19b-20, os quais olham para o futuro já presente” .

6. O único Senhor da História


Torna-se imperativo, não somente para a VRC, mas para a Igreja como tal, relembrar que o protagonista de tudo é Deus. A Igreja, a VRC, as Congregações, as obras são instrumentos do crescimento do Reino, instrumentos valiosos e escolhidos por Deus, sem a menor dúvida, mas simplesmente “instrumentos”. São como as ferramentas que Deus usa para erguer e expandir o Reino no meio de nós. Porém, ferramentas não são eternas, podem servir, e muito bem, em uma época, e ser anacrônicas e obsoletas em outra. Anos atrás, na evangelização serviam como ferramentas o projetor de slides, mimeógrafo a álcool e álbuns seriados, só para recordar algumas. Hoje estão substituídas, quase em toda parte, pelos novos instrumentos de comunicação e informática. Não serviam? Serviam muito bem, só que passou a sua serventia e renovamos os nossos instrumentos de trabalho. Assim com a VRC: muita coisa servia e era de grande valor, mas nem tudo serve mais. Sem que notemos, freqüentemente identificamos o essencial da VRC com as formas de vivenciá-la, e assim ficamos confusos quando a maré da história nos deixa de lado diante das mudanças rápidas do mundo pós-moderno. Muito oportuno, neste sentido, foi o discurso do Papa Francisco para a última Assembleia Plenária da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica, no mês de novembro de 2014, quando insistiu:
“Como lhes recordei outras vezes, não devemos ter medo de deixar os ‘odres velhos’: ou seja, de renovar os hábitos e as estruturas que, na vida da Igreja e, portanto, também na vida consagrada já não respondem ao que Deus nos pede hoje para fazer avançar o Reino de Deus no mundo: as estruturas que nos dão falsa proteção e condicionam o dinamismo da caridade e dos hábitos que nos afastam do rebanho ao qual fomos enviados e nos impedem de escutar o grito dos que esperam a Boa Nova de Jesus Cristo”.
Por isso devemos relembrar a primeira intuição do Deutero-Isaías, que o protagonista da história da salvação é Deus e só Ele é o Absoluto. Ele desafia o povo exilado a enxergar a ação criadora de Deus no meio de tanta confusão, fraqueza e incerteza:
“Vejam que estou fazendo uma coisa nova: ela está brotando agora e vocês não percebem?” (Is 43,19).
O povo percebia muito bem o fracasso do antigo projeto, a sua debilidade como indivíduos e coletividade, a falta de perspectiva para o futuro, a pouca esperança. Mas tinha uma tremenda dificuldade em enxergar o que Deus estava fazendo brotar, uma nova missão, livre da camisa-de-força das antigas ideologias e estruturas sufocantes:
“É muito pouco você tornar-se o meu servo, só para reerguer as tribos de Jacó, só para trazer de volta os sobreviventes de Israel. Faço de você uma luz para as nações, para que a minha salvação chegue até os confins da terra” (Is 49, 6).

7. Luz para as nações


Nesta segunda década do século vinte e um, muita gente na VRC passa por experiências semelhantes: saltam aos olhos a aparente debilidade do projeto da VRC tradicional.
No Brasil é quase geral a diminuição no número das vocações, especialmente para a VRC feminina; em toda parte temos o rosto de uma entidade envelhecida; fecham-se, com muita frequência, casas religiosas, obras caritativas, casas de apostolados que, muitas vezes, pareciam ser a marca registrada das Congregações. Frequentemente todo esse fenômeno é visto como algo fortemente negativo e carece de uma análise melhor do rumo que nossas congregações tomaram, da nova situação demográfica no país, das novas opções abertas aos jovens cristãos de hoje. Será que Deus não fala conosco como falou nas palavras do profeta para os exilados, não com tom de ira nem aborrecimento, mas querendo nos cutucar para que tiremos as “cataratas espirituais” que impedem que vejamos o que é o “novo” que Ele esta fazendo brotar: novas formas da Vida Consagrada (com todas as ambigüidades e tensões que isso acarreta), comunidades intercongregacionais, equipes volantes e itinerantes, novas formas de presença nos “novos areópagos” como dizia São João Paulo II?
É bom notar que, embora o profeta desafiasse o povo no Exílio a enxergar o “novo” da ação de Deus no seu meio, ele não disse como era esse “novo”. Levou os exilados a descobrir por si mesmos essa novidade da ação do Espírito. Convidou-os a enxergar a nova realidade com novos olhos e não julgá-la com a visão dos tempos idos. Usa a mesma pedagogia do autor pós-exílico do Livro de Jó que, no fim desse livro clássico, depois de Jó bravatear contra Deus, ou melhor, contra a caricatura do verdadeiro Deus apresentada pela ideologia da teologia de retribuição e representada no texto pelos três amigos, faz um pronunciamento profundo diante de Deus:
“Eu te conhecia só de ouvir. Agora, porém, os meus olhos te vêem. Por isso eu me retrato e me arrependo, sobre o pó e a cinza!” (Jó 42, 5-6).
O que foi que Jó viu que o fez mudar a sua vida? O texto não diz, pois cada leitor/a deve fazer a sua própria experiência. Qual é o “novo” que Deus está fazendo brotar hoje para a VRC? Temos que descobrir, às vezes, às apalpadelas (cf. At 17, 27), mas com a certeza que Deus não falha e que a proposta da VRC não fracassa, mas se renova, talvez em formas ainda não imaginadas, também dentro das Congregações tradicionais.

8. Deixar a memória falar


No tempo de crise e perplexidade dele, Deutero-Isaías retomava a memória do Êxodo, a experiência fundante do Povo de Deus, como ponto de referência. Com a caminhada de séculos, esses primórdios foram muitas vezes deixados no esquecimento pelos detentores do poder religioso-político em Israel, mas os profetas sempre foram vozes da memória das raízes do Povo de Deus e da Aliança. Esse desafio continua hoje para a VRC: acumulamos tantas estruturas e costumes durante a nossa caminhada milenar que, frequentemente, a intuição original, a razão-de-ser da VRC, cai ao segundo plano, se não na amnésia quase total. Assim torna-se necessário que nós também voltemos às origens, como há muitos anos tem-se insistido. Mas não basta somente voltar às raízes, como se fosse para simplesmente “reproduzir” a experiência original, feita dentro de um contexto muito diferente daquele que confrontamos hoje. Assim nos mostra a experiência do profeta Elias, narrado em I Rs 19, 1-18. Desanimado, ameaçado, até desejando a sua própria morte, sem novas perspectivas, ele se dirige até Monte Horeb , ou seja, ele “volta às fontes”. Volta, porém, sem renovar a visão, buscando simplesmente repetir a experiência do passado. Ele aguarda Javé no furacão, no fogo e no terremoto, sinais tradicionais da teofania, mas Javé não se encontrava neles. Pelo contrário, o Senhor estava na brisa mansa, onde o profeta não o esperava encontrar. Somente quando ele se abriu à nova maneira de Deus se manifestar, houve o seu encontro com Deus, que o renovou e o remeteu de volta à sua missão profética, com renovado ardor e nova força. Igualmente, somente ao abrirmos as nossas mentes, corações e olhos para novas experiências de Deus, que se manifesta sempre com novas expressões, é que a VRC receberá o impulso para “tomar o caminho de volta”. Não somente para repetir antigas formas, expressões, estruturas, obras e costumes, mas para ser “luz das nações”, mergulhada no contexto da sociedade complexa de hoje. Verdadeiramente, como escreve uma teóloga inglesa: “Tem que existir algo da essência da inspiração fundacional que não se pode perder sem que se perca a própria inspiração fundante. Os fundadores e fundadores de uma congregação religiosa focalizam o mistério de Cristo para os seus membros, mas estes fazem mais do que focalizar um aspecto dos fundadores e devem estar cientes do perigo de se fecharem em um culto dos fundadores e fundadoras... Assim novos membros podem enriquecer a inspiração fundacional trazendo à tona novos elementos que talvez não sejam suficientemente desenvolvidos” .

9. Estou criando coisa nova


Engana-se quem acha que a situação de crise atual da VRC seja coisa inédita. As formas em que ela se expressa, as manifestações concretas em muitas congregações talvez sejam novas, mas a História de Salvação demonstra que sempre foi através de crises que o projeto de Deus avançava. Além de Deutero-Isáias, Jeremias, longe de fazer jus à sua fama imerecida de ser pessimista, tinha este olhar, nos tempos de tribulação e conturbação: “Conheço meus projetos sobre vocês – oráculo de Javé: são projetos de felicidade e não de sofrimento, para dar-lhes um futuro e uma esperança” (Jr 29,11).
Essa verdade se verifica não somente em casos do Antigo Testamento, como o do Exílio de Babilônia, mas também nos Evangelhos e nas experiências das primeiras comunidades. “Estou criando coisa nova e vocês não estão enxergando?” podia ter sido indagação, não somente no tempo do Exílio, mas frase de Jesus dirigida aos seus discípulos. Pois eles estavam como que cegados pela ideologia do messianismo davídico e, por isso, incapazes de entender o verdadeiro messianismo de Jesus (cf. Mc 8, 21; 8,33; At 1, 6). As primeiras comunidades tiveram muitos problemas para enxergar o “novo” que estava despontando com a entrada dos gentios na comunidade. É só lembrar o conflito na comunidade de Jerusalém, por causa do tratamento das viúvas helenistas. A necessidade de uma Assembleia extraordinária, que tradicionalmente denominamos “Concílio de Jerusalém”, que acolheu o novo, representado pela experiência missionária de Barnabé e Paulo, embora demorasse a chegar a ser totalmente colocado em prática, como demonstra o conflito em Antioquia (cf. Gl 2,11-14). O que parecia um desastre para a Igreja nascente, como a perseguição desencadeada em Jerusalém após a morte de Estevão, mostrou-se uma bênção, pois levou à evangelização em outras regiões e entre outros povos (cf. At 8,4: 11,19-21). Até a separação acrimoniosa e sofrida de Barnabé e Paulo, embora lamentável em si, resultou na formação de duas equipes itinerantes missionárias, em lugar de uma. Repetidamente, o que parecia desastre, fracasso e ruína, mostrou-se renovação, revitalização e regeneração! Mas exige um novo olhar para sair da lamentação e pessimismo e descobrir o que Deus estava fazendo brotar!
Jesus costumava dizer, terminando as suas parábolas: “quem tem ouvidos para ouvir, ouça” (cf. Mt 13,9). Diante da atual situação da VRC no Brasil (na atualidade), o Espírito continua a germinar nova vida, mas quem sabe, precisamos retirar os “véus” dos nossos olhos e mentes para enxergar o que está acontecendo. Valem as palavras de uma grande teóloga norte-americana da Vida Religiosa, Irmã Joan Chittister OSB: “A finalidade da VRC não é a sobrevivência, mas o profetismo”. Como escreve o Frei Timothy Radcliffe O.P. ex-Ministro-Geral dos Dominicanos:
“Esse é um tempo de crise, e a Igreja se renova pelas crises. A História de Salvação é história de crises que levam a renascimento, desde a Queda até a Última Ceia. Esse tempo de crise para a VRC ultimamente será uma bênção e nos leva a uma renovação, talvez por caminhos que não podemos imaginar. Mas isso só acontecerá se não ficarmos obcecados com a nossa sobrevivência”
Talvez hoje o brado de Jesus para nós seja como aquele do Deutero-Isaías tantos séculos atrás: “Vejam Que Estou Fazendo Uma Coisa Nova: Ela Está Brotando Agora E Vocês Não Percebem? Quem tem olhos para ver, que veja!”